Brazil: O Filme
Há uns anos eu tinha começado a assistir esse filme, aleatoriamente me deparei com a capa escrita “Brazil” enquanto procurava algo para assistir e curioso o escolhi, na época, além de mais ingênuo, também tinha ficado atordoado com tanta coisa acontecendo. Era um momento onde eu ainda tentava racionalizar de mais. Um tempo depois vi em alguns lugares citações ao filme e acabei guardando na mente que em algum momento deveria tentar assiti-lo novamente.
Hoje de manhã, logo após acordar, li um pouco do “O Processo” do Kafka e recordei da burocracia em que o vivente do Brazil (Sam Lowry) estava submetido e nisso resolvi que hoje seria o dia em que eu assistiria o filme.
Dessa vez nas primeiras cenas já percebi o quanto esse filme é interessante, ao mesmo tempo que um líder político fala ferozmente contra os ditos terroristas um homem se esforça ao máximo para matar uma mosca. O animal cai dentro do mecanismo de uma máquina de datilografia automatizada, causa um erro na escrita de um nome e faz com que um individuo seja, erroneamente, preso e morto. Todo o filme se desenrola em derivações desse acontecimento.
A impessoalidade de tudo no mundo material é a parte que mais me pegou. Quando o ar-condicionado na casa do Sam Lowry quebra um cara chamado Harry Tuttle - que foi salvo pelo pelo cadaver da mosca que fez a maquina escrever Buttle no lugar de Tuttle - aparece para resolver o problema, alegando ter sabido da situação ao interceptar a ligação na qual a empresa responsável deu alguma desculpa, que não me recordo, para não prestar o suporte naquele momento, com o passar das coisas descobrimos que ele está sendo procurado justamente por resolver problemas sem passar por toda a burocracia exigida pelo sistema.
Quanto menos dependente do sistema mais fácil é ser percebido(a) como um elemento perigoso. Uma percepção em muito verdadeira, algo notável pelas cenas nos últimos minutos do filme e com uma análise honesta de nós mesmos, e que ao mesmo tempo demonstra o quão perigoso também é uma grande dependência. Cada um dos extremos reservando boas doses de inconveniência.
Do extremo burocrático desse Brazil, não só nas questões jurídicas, deriva uma complexidade que ajuda no distanciamento do individuo normal conseguir uma independência para manutenção das coisas do seu dia a dia (resultando nos Tuttles da vida) e uma percepção que vi o Matheus - da Central Pandora - é dessa complexidade justamente resultar em mais acidentes nos mecanismos, uma relação inversamente proporcional costuma existir entre a complexidade de um sistema e o tamanho dos problemas necessário para causar uma falha relevante.
Tendo sistemas proporcionalmente mais complexos e falhos não é de se surpreender que talvez os tais terroristas, que são ditos como os grandes vilões, aqueles que adulteraram a documentação que fez o Buttle ser preso e morto no lugar do Tuttle e causando toda uma série de problemas, na realidade sejam as próprias maquinas, que os tais atentados sejam falhas causadas pelo péssimo desenvolvimento das mesma.

